Arte e Cultura    
   
Troquei o lúcifer num dia 'bão'!
     
Autor: Vicente Ines Quintão  
     

Brasileiro é assim! Não sabe comprar carrro e chamá-lo pela marca. Tem que colocar nome e criar uma relação de companheirismo com a “máquina”, como se ela fosse um membro da família ou, no mínimo, um “companheirão” de aventuras e de desventuras.

Para quem não sabe, lúcifer é o nome que coloquei num carro. Uma parati ano 85, modelo 86, de cor branca, “alcóolatra”; uma belezura! O batizo com esse nome “diabólico” se deu na primeira viagem à serra da Canastra.
 
Naquele mês de março, as estradas de terra foram transformadas em grandes atoleiros, depois de três semanas de chuvas ininterruptas. Cada subida era um desafio a ser vencido e, as descidas, nada menos perigosas. Naquela noite, deparei-me com vários carros batidos nos barrancos, nos dois sentidos da pista. Quem dirige, sabe: se um carro perder a tração ou a aderência ao chão numa descida, o motorista torna-se passageiro e um mero expectador da cena seguinte.

E não deu outra! Depois de vencidos os inúmeros obstáculos e de chegar em casa à luz de faróis tênues, embaçados pelo barro espirrado dos pneus que se grudaram nas lentes de vidro, a parati foi batizada de lúcifer. Não com o sentido pejorativo do nome, mas como um anjo de luz, rompedor das trevas e com a capacidade da oferecer iluminação espiritual, por meio da reflexão. Os motoristas solitários sabem do que falo. Entendem as “reflexões” junto ao âmago da alma numa reta virtual, numa curva eventual, perguntas sem respostas ...

Estava em Belo Horizonte. Amanheceu um domingo de sol, num abril de céu azul púrpuro, bem claro. E pensei: “hoje me parece um dia ´bão` para trocar o lúcifer. Afinal, nada é eterno! Além do mais, ele cumpriu bem a tarefa. Foram cerca de sessenta mil quilômetros rodados em quase três anos de ótima convivência. Uns vinte mil do total da quilômetragem percorridos em estradas de terra, barro, poeira e cascalho. Vai deixar saudades!”

     
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