Arte e Cultura    
   
O Equívoco
     
Autor: Edson Macedo (Edinho do maçú)  
     

Tião Bento, sujeito beberrão e fanfarrão, levava sua vidinha tranqüila e pacata em um pequeno vilarejo, quase afastado da civilização.

Em um belo dia, deu em sua cabeça o desejo de conhecer o mundo lá fora. Arreou seu baio velho (um cavalinho pangaré que tinha) colocou no embornal a matula, no cantíl, um pouco de água da mina, e lá se foi cantarolando uma canção, que ele mesmo compôs.

Depois de algumas dezenas de léguas, chega ao seu destino. Procurou uma sombra acolhedora para seu companheiro de viagem, e sem pensar muito, já deslumbrando iniciou sua tão sonhada visita pela cidade.

Tião fascinava com tudo que via. Gente a correr para um lado e outro, carros... Motos, coisas que para ele era uma novidade enorme, só tinha visto tudo aquilo em recortes de revistas e jornais velhos. Tião sorria de contentamento. Tão feliz , que resolvera entrar em um bar, um tanto sem jeito, e pedir uma cachacinha... de um só gole, fez a danada desaparecer guêla abaixo, estalando a boca, talvez para saborea-la melhor.

Tudo era realmente novo para Tião, em toda sua vidinha pacata de matuto jamais vira tantas variedades e coisas diferentes, incluindo é claro, aquelas cachacinhas com sabores diferentes, que depois da primeira o fez perder a timidez.

(...) O dia foi passando.

Tião já sentia bastante à vontade, parecia até como um velho morador daquela cidade, resultado quem sabe do álcool, e pôr si só, pressentiu que deveria, pôr motivo de sua segurança, parar de beber com tanta veemência.

Neste vai e vem pela cidade, sentiu que seu estômago estava roncando, sinal de fome. Deveria comer algo, nem que fosse para enganá-lo,  pensou logo em sua matula... Mas lembrou-se que nela  não havia sobrado nada, tudo que trouxera comera durante a viagem, teria então, que se virar com outra coisa para comer. Entrou então em uma venda, pediu um pão doce, daqueles bem enormes salpicados com queijos, se deliciando sai a comer pelas ruas, como se estivesse em seu arraial, não se preocupando com as pessoas que passavam,
o importante mesmo, é que sentia-se feliz.

(...) Já era noite.

Tião, com aquele pão enorme não conseguiu comê-lo todo de uma só vez, além do mais, a bebida tirara um pouco sua suposta fome, o que sobrara colocou no bolso traseiro de sua calça . A noite chegava com aquela brisa fria, resolveu então, colocar seu zurrado paletó. Deu em seguida continuidade ao seu tão importante passeio pela cidade, seus olhos brilhavam como de uma criança, se encantando com as placas luminosas dos estabelecimentos comerciais.

Entretanto, a distância um policial o observava, e o achava um tanto estranho. Conhecia todos naquela cidade, Tião, era para ele um estranho, porque nunca tivera visto antes por ali, e por isto teria, uma atenção redobrada, e mais ainda, quando o estranho em questão,  parecia estar fortemente armado!

Pensava o policial...Aquele sujeito apresentava um grande volume no bolso...Talvez um facão...Quem sabe um revólver, ou outro tipo de arma, ele, como um bom policial, tinha que estar sempre alerta, era sua cidade que estava a mercê, quem sabe, de uma pessoa perigosa, ou até mesmo um assaltante disfarçado.

O tempo foi passando. Tião não parava em lugar nenhum, estava ávido para ver tudo de uma só vez, só assim compensaria, aquela sua viagem de tão longe sob o sol escaldante daqueles sertões por onde passara, cavalgara quase o dia todo em seu pangaré, para chegar até ali, e não queria perder um só minuto. Porém, sem que o pobre matuto percebesse, o policial, sorrateiramente seguia seus passos, maquinando uma forma de abordá-lo.

Em um dado momento, Tião, para descansar um pouco, pois já havia andado bastante, fica ali parado em uma esquina qualquer, não quis sentar-se, continuou de pé  olhando o luar, que já prateava clareando o anoitecer.

Neste exato momento, o policial, achou que seria a oportunidade ideal, e estratégica, para agir, e pensou...  É agora ou nunca! Subitamente deu um salto brusco, e violento em direção a Tião, imediatamente colocando a mão sobre aquele suspeito volume, que o pobre matuto trazia no bolso trazeiro. Foi logo dizendo:

- Está preso seu moço! Não sabes que é proibido andar armado pela cidade? Referindo-se àquele volume em seu bolso. O pobre matuto, sem nada entender, com sua humildade peculiar, que o sertanejo sempre carrega consigo, respondeu ao policial com a maior inocência: 

- Pois não seu dotô! O sinhô tá cum fome pode cumê! Referia-se o matuto, sobre o pedaço de pão doce, que guardava em seu bolso, imaginando então, que o policial estivesse querendo pegá-lo para comer, por estar com fome, segundo seu humilde entendimento. O policial, notando seu grande equívoco, cabisbaixo e envergonhado, vai se afastando sem nada dizer, deixando para traz, Tião, que ainda sem nada entender, continuava ali de pé, olhando para o céu estrelado, com saudades quem sabe, do luar de seu sertão.

     
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