Editorial    
   
Falcão é sinônimo de corrupção
     

Em março, o documentário “Falcão, os meninos do tráfico”, produzido pelo rapper carioca MV Bill e o empresário dele, Celso Athayde, ao longo de seis anos de pesquisas em favelas de vários Estados brasileiros, foi um dos temas mais interessantes e preferidos por inúmeros programas da TV. O assunto “tráfico e marginalidade” percorreu diversos cenários, debatido e rebatido por vários especialistas de inúmeras áreas: antropólogos, sociólogos, delegados, jornalistas etc. Falcão é o nome recebido por aqueles que têm a função de vigiar as favelas, para avisar os traficantes da aproximação da polícia ou de outro perigo iminente. Geralmente, as crianças são utilizadas para essa finalidade.

É importante o trabalho social realizado por diversas pessoas e entidades. Mas, cabe lembrar a todos que a discussão não é nova e, muito menos, as imagens. Durante os debates, falaram sobre programas sociais e da relevância do trabalho desenvolvido pelo MV Bill frente ao Afro Reggae; sobre a ineficiência das forças policiais devido aos péssimos salários e do vínculo de alguns profissionais com o tráfico para complementar o soldo; discutiram a “cabeça” das crianças “falcões” - vazias, sem lágrimas ou sorrisos, sempre dopadas pela droga do dia (cocaína e crack, principalmente); dramatizaram ainda mais a vida dos brasileirinhos mas se esqueceram do mais importante: o porquê de tudo isso!

Todos os brasileiros, com um mínimo de senso de economia, sabem que vivemos no país mais rico do mundo em biodiversidade e riquezas minerais. Nascemos num rincão pródigo, mas que, desde o descobrimento, o país sofre com os colonizadores. Um bando de fidalgos (aqueles que vivem de rendimentos, sem trabalhar) bem trajados e dispostos a escravizar os semelhantes em benefício próprio.

Os tempos mudaram e os trajes também, mas a escravidão continua. Basta conferir o valor do salário mínimo e verificar as condições de miséria da maior parte da população. Em grande parte, a situação se perpetua devido às leis brasileiras, retrogradas e permissivas de várias interpretações. E, também, graças às benesses que os políticos recebem, como “fórum privilegiado”, quando deveria ser exatamente o contrário. As leis deveriam ser mais criteriosas e rigorosas para com aqueles que ocupam cargos públicos.

Enquanto cidadãos são presos por “descascar” uma árvore para usar a casca como remédio ou trancafiados por apoderar-se de um pote de manteiga, políticos andam “livres, leves e soltos” depois de compactuar com "mensalões" e faltar com o decoro parlamentar, de construir quadras “poliesportivas” de areia e cascalho, estações de tratamento de esgoto ineficientes, manipular concursos públicos, depredar o meio ambiente ... e por aí afora.

Quer dizer, enquanto houver corrupção amparada por leis ineficientes, judiciário incompetente em várias ocasiões e, às vezes, até parcial, continuaremos a conviver com os “meninos do tráfico”. E, conforme os “falcões”, não adianta: morre um, nascem outros iguais ou melhores; isto é, piores.

E a sociedade, ainda, nem aprendeu a votar!

     
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